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ARTIGO: MUHAMMAD ALI E A LUTA CONTRA O RACISMO

O  jornalista Ascânio Seleme escreveu um grande e oportuno artigo no jornal O Globo, no dia 10/6, sobre Muhammad Ali, mas não sobre suas vitórias no ringue, onde era o rei, mas também no debate da questão que mobiliza o mundo. Onze anos antes de morrer, ele ganhou do presidente George W. Bush a Medalha Presidencial da Liberdade.
Ali era um grande líder, seus argumentos eram sólidos e sua capacidade de atrair pessoas, indiscutível. Seleme nos conta que no dia 4 de julho de 1967, quando ele se recusou a integrar as Forças Armadas, apesar de ter sido convocado, 11 dos mais renomados esportistas negros dos EUA, ídolos do futebol americano, do basquete e do beisebol, se reuniram com ele para demovê-lo da decisão. Durou 4 horas a reunião e, ao final, os atletas saíram apoiando a decisão de Ali.
Muhammad Ali, continua Seleme, não serviu ao Exército alegando motivações religiosas, como foi muito difundido na época, já que pouco antes ele tinha se declarado muçulmano. Mas essa foi a saída política que encontrou para um conflito interno. Na verdade, dizia aos seus amigos que não iria para a Guerra do Vietnã, que estava no auge de sua escalada, porque não se sacrificaria por um país que o segregava racialmente.
As consequências foram grandes. Ali perdeu o cinturão de campeão e foi afastado do boxe. E todos os atletas que participaram da reunião com ele, nos dois anos que se seguiram, foram afastados dos seus times, de suas ligas e alguns banidos do esporte. O recado por trás disso era de que o esporte dos EUA tinha donos e eles eram brancos.
Ali dizia: “Negros têm sofrido lavagem cerebral. Roubaram nossa cultura, roubaram nossas verdades, roubaram nossas histórias”.
“Com a medalha de ouro dos Jogos Olímpicos no peito, fui a um restaurante no centro de minha cidade natal. O atendente falou para mim: não servimos negros. Eu respondi que também não os comia e pedi um cachorro quente. Não me serviram e tive que sair do restaurante”.
“Tarzan é o rei da floresta na África, mas ele é branco. Ele bate nos negros locais, quebra queixo dos leões com um soco e fala com os animais. E os africanos que vivem lá há séculos não conseguem falar com os bichos”.
“O melhor sabão é o que lava mais branco, o Presidente vive na Casa Branca, o patinho feio é preto, Papai Noel é branco, o bolo do anjo é creme e o bolo do diabo é de chocolate. É evidente que alguma coisa está errada aqui”.
E continuava: “Quem foi linchado? Fomos nós que queimamos cruzes? Fomos nós que cobrimos de óleo e penas, batemos com paus, violentamos e enforcamos pessoas? Nós escravizamos povos? Quem foi escravizado por 400 anos? O que foi que fizemos para que os americanos brancos agora digam que nós os odiamos?”
“Sou feliz porque sou livre. Eu marquei minha posição. Todos os negros terão de fazer o mesmo, mais cedo ou mais tarde” – conclui o artigo Ascânio Seleme.
Os recentes acontecimentos que foram motivados pela morte de George Floyd, tal o choque da brutalidade racista contido nela, enquanto Floyd avisava que não estava podendo respirar, durante mais de 8 minutos. A crueza desse fato mostrada na televisão despertou no mundo todo uma revolta como nunca vimos antes. Acredito que muita coisa vai mudar no mundo e nos EUA, nada mais será como antes.
Eu ganhei um grande livro chamado Escravidão, do renomado escritor e historiador Laurentino Gomes. Ele lançou o volume 1 que vai do primeiro leilão de escravos até a Morte de Zumbi dos Palmares. Laurentino levou seis anos de pesquisas e observações que incluíram viagens a doze países e três continentes. A obra explica, entre outros aspectos, as raízes da escravidão humana na Antiguidade e na própria África, antes da chegada dos portugueses.
Escravidão no Brasil – Diz Laurentino: a palavra escravo vem de eslavo, primeiros povos a serem escravizados. Eram louros de olhos azuis, assim como os holandeses e outros europeus escravizados. O Império Turco-Otomano escravizava asiáticos para vender. Os portugueses começaram a fazer excursões a África para aprisionar escravos até que descobriram que era mais barato comprar os escravos de reis e chefes africanos e exportá-los para as Américas, através do Oceano Atlântico. Mas, no Oceano Índico o comércio era tão grande como no Atlântico, feito com países asiáticos. E assim, Laurentino mostra que a escravatura não era racista, mas a escravatura criou o racismo.
O Padre Antônio Vieira dizia que o Brasil tem seu corpo na América e sua alma na África. O Brasil se tornou o maior território escravocrata do Hemisfério Ocidental e recebeu cerca de 5 milhões de cativos africanos, 40% dos 12 milhões embarcados para a América, ao longo de 3 séculos e meio. Como resultado, o país tem hoje a maior população negra do mundo depois da Nigéria. Nossa população tem maioria negra ou parda, 54%. Foi também o país que mais resistiu a acabar com o tráfico de pessoas e o último a abolir o cativeiro.
Nenhum outro assunto, diz o historiador, é tão importante e tão definidor da nossa identidade nacional.
Joaquim Nabuco, o Estadista do Império, dizia que a grande questão brasileira não é a monarquia, é a escravidão. E que os brasileiros estariam condenados a permanecer no atraso enquanto não resolvessem de forma satisfatória a herança escravocrata. Para ele, não bastava libertar os escravos. Era preciso incorporá-los a sociedade como cidadãos de pleno direito.
Que falta nos fazem homens como Nabuco que compreendiam bem que o Brasil não pode tolerar a pobreza de grande parte de nossa população, decorrente de causas históricas como o racismo! Assim, nunca seremos grandes. Temos que igualar as oportunidades já na infância, dar a mão para as famílias pobres para que suas crianças tenham as oportunidades que os pais nunca tiveram.
E, para concluir, um antigo ditado africano: “Até o leão aprender a escrever, a história exaltará a visão do caçador”.
O livro de Laurentino tem um problema: a narrativa é tão bem feita que lhe impede de largar o livro para fazer qualquer outra coisa.

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