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Conheça a história de ‘Os Bárbaros’, considerada a primeira gangue de São Luís

Um assunto muito comentado pela sociedade maranhense, mesmo que de forma
coloquial, são as facções criminosas. Isso não é invenção. De fato, em nosso estado há
o Primeiro Comando da Capital (PCC), Comando Vermelho (CV) e Bonde dos 40.

Existe, ainda, um grupo que se autodenomina “Neutros”. Antes dessas organizações
criminosas, havia as gangues, que predominaram na década de 1990. Você sabia que a
primeira gangue propriamente dita da capital maranhense foi “Os Bárbaros”?

O repórter, escritor, palestrante e pesquisador Nelson Melo conversou com um ex-
integrante dessa gangue, como parte dos seus estudos independentes (sem vínculo com
universidades ou qualquer outra instituição) sobre a criminalidade no Maranhão. Autor
de dois livros sobre facções criminosas no território maranhense (“Guerra urbana –
morrendo pela vida loka” e “Guerra urbana – o homem vida loka”), o jornalista colheu
diversas informações com essa fonte, cujo nome, evidentemente, não será citado nesta
matéria.

Segundo o ex-membro disse ao pesquisador Nelson, “Os Bárbaros” atuaram em São
Luís no final da década de 1980 e início da década de 1990. De acordo com a fonte,
que chamaremos aqui de “Oráculo”, a ideia do grupo surgiu de filmes da época, como
“Colors – as cores da violência” e “Selvagens da Noite”. Este último foi o maior
incentivo para a formação da gangue em questão. “A ideia era reunir um grupo de
jovens com ideologia, para falarmos bobagens, com algumas coisas do cotidiano, para
irmos em festa, namorar, e fazer uma rebeldia velada, que sempre tinha na época, mas
não era de forma explícita”, relembrou o entrevistado.

A gangue começou nessa reunião de estudantes, de várias escolas da região central de
São Luís, como Liceu Maranhense, Ateneu e Humberto Ferreira. Os alunos e alunas se
encontravam na Praça Deodoro e também na Praça Gonçalves Dias. Segundo
“Oráculo”, o grupo não tinha uma sede, uma “fortaleza”, como ocorre hoje com as
facções criminosas. Os rapazes e moças assistiam, juntos, a filmes de ação no Cine
Passeio e Cine Monte Castelo. Dessa rotina, foram influenciados por heróis da mídia,
como os personagens interpretados por Arnold Schwarzenegger.

“Olha, ‘Os Bárbaros’ foram a primeira gangue formada por jovens catalogada na
capital maranhense, sem sombra de dúvidas. A gente se reunia muito em frente ao
Sesc da Deodoro e em frente ao Ginásio Costa Rodrigues. Às vezes, a gente gazeava
aula para se encontrar”, disse o ex-integrante. Ele contou que o nome, mesmo, do
grupo surgiu do filme “Conan – o bárbaro”, sucesso na década de 1980, sendo que o
protagonista era interpretado por Arnold Schwarzenegger.

O apelido de um dos fundadores e considerado o primeiro líder reconhecido do grupo,
inclusive, era “Conan”, cujo nome era Nadson. “Ele era bem cabeludo e tinha o tipo
físico do herói do cinema, mas em menor proporção. Podemos dizer que ele era um
‘Conan nordestino”, digamos assim”, frisou o entrevistado. Conforme “Oráculo”, os
membros se reuniam para ouvir música, dançar, para se divertir. E também para ingerir
bebida alcoólica, sobretudo vinho.

De acordo com a fonte, havia, sim, uma hierarquia na gangue. Havia respeito entre
todos os integrantes. Segundo “Oráculo”, a ideia original do grupo não era cometer
crimes, apesar de algumas situações terem acontecido, como brigas nas ruas. “O
pessoal também cogitava, às vezes, de invadir escola, mas somente quando um
integrante do grupo era agredido ou ameaçado. Mas nós não cometíamos roubos,
furtos, essas coisas”, esclareceu o ex-membro.

“Oráculo” disse ao repórter Nelson Melo que a rebeldia da gangue era aquela dos
filmes da época. Segundo ele, “Conan” se afastou do grupo quando a turma começou a
mudar os rumos de “Os Bárbaros”. Nadson, inclusive, foi morto com disparos de arma
de fogo após uma discussão intensa com um rapaz que morava no Cohatrac, na região
da Deodoro, entre o final de 1989 e início de 1990. “Conan” foi baleado na perna, no
pé e perto da virilha. Ele ainda saiu caminhando até o Socorrão 1, mas não resistiu à
noite.

“A morte dele ocorreu depois que um integrante da gangue fez uma ‘vaquinha’ para
comprar vinho. Ele saiu e voltou com a garrafa. Quando a garrafa foi esvaziada,
fizeram outra ‘vaquinha”. Dessa vez, ele voltou sem o vinho. O pessoal ficou ‘puto’.
Aí, a galera do Cohatrac tentou agredi-lo. Ele saiu correndo e voltou com o Nadson,
que discutiu com essa rapaz do Cohatrac”, recordou a fonte. Segundo “Oráculo”, a
partir daquele momento, não tinha mais sentido nenhum continuar com a gangue,
sendo que “Conan”, àquela altura (antes da morte, claro), já havia saído da liderança.

“Foi o ponto final do movimento no Centro da cidade com a morte de ‘Conan’. O resto
se reunia, mas não tinha mais identidade. Virou um grupo de baderneiros, que se
encontrava para fazer confusão, diferentemente da ideia original”, mencionou o ex-
membro. O segundo líder de “Os Bárbaros” foi “Bob”, que era um negro alto. Ele
tinha mais ou menos 1,90 de altura. “Ele era forte e se destacava pela altura. ‘Bob’ já
entrou na fase de declínio da gangue, quando as outras gangues de bairro começaram a
surgir”, comentou o ex-integrante.

Conforme “Oráculo”, essas outras gangues surgiram por influência de um filme
chamado “Breakdance”, sucesso no final da década de 1980. “O filme narra a história
de duas gangues rivais, que se encontravam para disputar territórios, mas não com
violência, e, sim, com dança. Esse filme foi o estopim para a criação dessas outras

gangues em São Luís. É importante dizer que já havia gangues, além de ‘Os Bárbaros’,
na capital, como a ‘Electrogangue’, no Cohatrac. E a ‘Dente de Sabre’, na Cohab. No
Cohatrac, também havia a ‘Irmandade do Aço’, naquela época”, ressaltou o
entrevistado do escritor Nelson Melo.

De acordo com “Oráculo”, a principal rival de “Os Bárbaros” era “Olhos Vermelhos”,
do Vinhais, cujo líder era “Paulo Orelha”. Essas duas gangues, uma vez, quase se
confrontaram para valer na Praça Gonçalves Dias, quando houve um princípio de
tumulto, mas um “cessar fogo” foi assinado entre os grupos. As gangues, segundo a
fonte, marcavam as brigas e, no final do duelo, com chutes e pontapés (às vezes,
pedras de ambos os lados), os dois líderes de cada turma se enfrentavam na frente de
todos, como forma de demonstrar poder, para mostrar quem mandava mais “no
pedaço”.

Conforme “Oráculo”, no auge de “Os Bárbaros”, havia aproximadamente 50
integrantes no grupo, entre homens e mulheres. “Havia membros efetivos e
simpatizantes. Alguns iam esporadicamente ao Centro. Outros iam diariamente. O que
era para ser somente uma reunião de jovens se transformou em uma gangue”, revelou
o entrevistado. Como nas facções, havia apelidos, como “Sombra”, “Rasgado”, “kid Hulk”
“Lobo”, “Babá”, “Cabelo” e “Suicídio”, que também era conhecido como
“Caveirinha”.

“Como na época a inspiração eram as gangues norte-americanas, nós utilizávamos
muitas correntes comuns, porretes, soco inglês e bastões, alguns de madeira e outros
de metal. Rapaz, parecia formigueiro. De repente, apareciam vários jovens na
Deodoro, para esses encontros. O período de maior fervor das gangues era quando
ocorria o JEMs (Jogos Escolares Maranhenses)”, comentou “Oráculo”. Segundo ele,
em determinada ocasião, uma turma da Liberdade agrediu um membro de “Os

Bárbaros”, que reuniu um grupo de cerca de 30 pessoas, para seguir até aquele bairro,
em busca dos autores das agressões.

“Invadiram de mãos limpas, coisa inimaginável para os dias atuais, quando as facções
utilizam armas de fogo poderosas. Graças a Deus, ninguém foi encontrado lá”,
expressou o ex-membro.

Segundo ele, o declínio da gangue começou quando outros grupos se aproximaram de
“Os Bárbaros”, por causa do status deste último. Uma delas foi a “Dente de Sabre”, da
Cohab, cujo líder era “Rogério Porquinho”, que foi morto anos depois em uma
rebelião em presídio de Fortaleza. Os membros da “Dente de Sabre” se reuniam no
“Clubão da Cohab”, mas apareciam, também, no Centro de São Luís. “Alguns
membros de ‘Os Bárbaros’ moravam na Cohab, como ‘Boi’, que depois virou hippie.
Por isso, ‘Conan’ decidiu se afastar, porque o grupo perdeu o controle e a identidade.
Surgiu até um boato de que Rogério queria brigar com ‘Conan’. A união das gangues
deturpou a ideia original do nosso grupo. Começaram a ir para o lado do crime.
Aquela visão da sociedade de que as gangues eram símbolo da rebeldia da juventude
foi mudando. A própria juventude começou a se afastar”, desabafou “Oráculo”.

“Começaram as bagunças em festas, as agressões a outras pessoas. Isso incentivava
outros bairros a criarem suas próprias gangues, como ‘Os Rasgas’, na área Itaqui-
Bacanga, ‘Os Toras’, também daquela área. Com o passar do tempo, essas pessoas se
afastaram e ‘Os Bárbaros’ morreu. Na época dos JEMs, a gente sempre se encontrava
em frente ao Ginásio Costa Rodrigues. A gente chamava o local de ‘Rodão’. A gente
sentava e interagia. Nós bebíamos. Quem dançava, dançava. Era para chamar a
atenção de alguma forma. Esse ‘Rogério Porquinho’ foi morto em uma rebelião em
Fortaleza. Ele foi embora de São Luís. Foi para Belém, onde cometeu assaltos e foi
preso”, relembrou o ex-integrante.

Ele frisou que o grupo conversava até “tarde da noite”, sendo que, às vezes, os
integrantes até perdiam o ônibus para voltarem às suas casas, pois “jogavam conversa
fora”, disse “Oráculo”, encerrando a entrevista.

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