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O chamado dos bairros: o contexto do ‘uivo’ na guerra urbana

Buck,  no meio do grupo, já era respeitado, embora ainda não tivesse demonstrado sua fúria diante dos demais. Em um ambiente hostil, o que era instinto ganhou validação na civilização.

Esta história é explorada pelo grande escritor norte-americano Jack London (1876-1916) no livro “O Chamado da Floresta”, publicado no
formato de folhetim em 1903. A questão da selvageria é algo muito frequente no
contexto da guerra urbana, quando facções criminosas se enfrentam para proteger seus
territórios ou para conquistar novos.
Na obra de Jack London, segundo o escritor, jornalista e pesquisador maranhense
Nelson Melo, “Buck” era um cão doméstico de uma família californiana, que foi
levado de seu ambiente e contrabandeado para o Alasca. Lá, ele se adaptou à vida
selvagem após interagir com cães já acostumados com o contexto de selva.

De acordo
com o repórter Nelson, as facções possuem esse aspecto primitivo, uma vez que a ideia
de dominar é algo que acontece desde o momento em que os primeiros seres humanos
passaram a domesticar plantas e animais, no início da Revolução Agrícola.
Nelson Melo, autor de dois livros sobre o crime organizado no Maranhão, cita o
escritor Yuval Noah Harari, que, em sua obra “Sapiens – Uma Breve História da
Humanidade”, diz que a Revolução Agrícola tornou o futuro mais importante do que
havia sido até então. Os caçadores-coletores viviam do que havia disponível no
ambiente. Já os agricultores “viajavam, em sua imaginação, anos e décadas no futuro”.

Com essa nova realidade, salienta o repórter, surgiram os vilarejos, época em que
grupos como Primeiro Comando da Capital (PCC) e Bonde dos 40 não existiam nem
como arquétipos. Ao longo dos anos, começaram os conflitos por poder e status.

Esse é o “chamado da floresta”, que, no contexto da guerra urbana, é o “chamado dos
bairros”, como Nelson Melo explicou em sua análise. No crime organizado, os
vilarejos dos primeiros camponeses da Terra são as comunidades ou “quebradas”.

Cada território é preenchido por grupos hierarquizados, com estrutura idealizada
dentro dos presídios. Nos chamados “estatutos”, as organizações criminosas exibem
suas permissões e proibições, de forma similar ao Código de Hamurabi.

O “uivo” não vem da floresta. Agora, vem dos bairros, da parte urbana, onde a guerra
urbana se consolida e aterroriza a população. Para o pesquisador Nelson Melo, que
está escrevendo um romance policial ambientado em São Luís/MA em 2014, as
regiões periféricas são mais vulneráveis ao poder das facções por vários motivos,
incluindo o processo de formação e características geográficas dessas comunidades.

Mesmo que um local tenha sido asfaltado, os faccionados continuam atuando ali
porque a ideia de “quebrada” é tão real quanto o estopim de uma guerra internacional.

“Não é só um bairro. Para os bandidos, é um ‘habitat’, onde a ‘lei do cão’ pode ser
aplicada sem dificuldades. Ocorrem muitas resistências, obviamente, pois vários
moradores não aceitam essa presença desviante”, comentou Melo. Importante destacar,
nesse ponto, que, na região metropolitana de São Luís, já ocorreram várias expulsões
de pessoas das comunidades pelos membros das facções, como na Proab (área Itaqui-
Bacanga), Vila Embratel, Vila Funil e Polo Coroadinho.

“E não somente ele aprendeu através da experiência, como instintos mortos há séculos
retornaram à vida. As gerações de animais domesticados foram sendo descartadas”,
menciona Jack London sobre “Buck”. As facções criminosas agem nessa perspectiva,
segundo Nelson, com o propósito de recrutarem os jovens para as suas fileiras, a fim
de ganhar vantagem numérica nos bairros e nas missões de tomada de territórios.

Assim como na prática dos crimes. “O ‘chamado’ é feito a cada instante. Nascomunidades, surgem novos rapazes e moças que abandonam os estudos, a família,
seus sonhos e se entregam a uma vida agitada, como Aquiles, que, ao ouvir o som da
trombeta, uma artimanha de Ulisses, rasgou suas vestes femininas, quando estava
disfarçado de mulher em Esquiros, para não ir à guerra contra os troianos, após
estratégia de sua mãe, a deusa Tétis, que já sabia que seu filho seria morto em
combate, como de fato aconteceu depois que o deus Apolo direcionou a flecha de Páris
no calcanhar do filho de Peleu”, observou o pesquisador maranhense, fã de Homero.

“Não sabemos até que ponto esse ‘chamado dos bairros’ será forte o suficiente para
fortalecer o crime organizado, uma vez que uma facção não se consolida apenas no
campo real, como também no campo simbólico. Isso significa que a ideia sempre
circula, até mesmo nos lugares considerados menos vulneráveis ao ‘uivo’. Isso tem um
sentido antropológico interessante para quem pesquisa o assunto”, explica Nelson
Melo. Para o escritor maranhense, a dimensão social é tão fundamental para a
persuasão quanto a dimensão criminal. Ou seja, a sensação de pertencimento é
oferecida como se fosse a única coisa capaz de superar as dificuldades de
sobrevivência.

“As guerras, comumente, são iniciadas por algo que, para uma das partes interessadas,
é uma justificativa. A História mostra isso. Sempre há um interesse nos bastidores. Na
superfície, tudo tem lógica fraudada. Abaixo do iceberg, na parte submersa, o sentido é
mais verdadeiro. Agamêmnon não reuniu o exército grego apenas por ser irmão de
Menelau, que queria encontrar Páris de qualquer jeito. Isso também ocorre dentro do
terreno das facções criminosas”, finalizou o jornalista Nelson Melo, para quem Jack
London é um dos maiores escritores da história mundial.

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