Artigo: Sirlan Sousa

Mas hoje… eu tenho nome.
Eu sou a Emenda.
[…]
Eu sou como um embrião.
Começo numa ideia: “vamos construir uma escola”, “vamos reformar um hospital”, “vamos levar água pra comunidade”.
Depois eu sou gestada no orçamento.
Aprovada. Carimbada. Liberada.
E aí começa a corrida.
Eu saio de Brasília… viajo… desço… chego nos municípios.
Era pra eu virar obra.
Era pra eu virar dignidade.
Era pra eu virar comida no prato.
Mas nem sempre eu chego inteira.
Porque no meio do caminho… tem o ralo.
Um ralo silencioso.
Discreto.
Mas poderoso.
Eu escorro.
Escorro em contratos superfaturados.
Escorro em empresas de fachada.
Escorro em acordos feitos longe dos olhos do povo.
E, por muito tempo, eu também escorri… na boca do caixa.
Dinheiro vivo.
Sem rastro.
Sem vergonha.
Mas agora… o jogo virou.
A decisão do ministro Flávio Dino apertou esse ralo.
Agora eu deixo rastro.
Agora eu conto história.
Agora eu entrego quem me desvia.
E deixa eu falar bem claro…
A justiça vai te pegar.
Não é mais “talvez”.
Não é mais “um dia”.
É agora.
O tempo fechou.
Pra quem roubou merenda…
Pra quem desviou hospital…
Pra quem tirou do prato de quem já não tem nada…
acabou.
Porque quando eu passo a ser rastreada…
você passa a ser caçado.
E sabe o que mais?
Assim como eu escorria pelo ralo…
vocês também vão escorrer.
Vão desaparecer da política.
Vão sumir.
Vão virar exemplo.
E talvez por isso a gente veja o que vê hoje:
Políticos com 50… 100… 180 prefeitos na mão.
Controlando municípios inteiros.
Enquanto eu… Sirlan Sousa…
e você que tá me ouvindo…
não temos nenhum.
Porque o sistema foi montado pra isso.
O prefeito que recebe… vira refém de quem manda.
O nome de quem enviou a emenda vira propaganda.
Vira voto.
Vira poder.
E quem tá começando?
Fica pra trás.
Sem máquina.
Sem estrutura.
Sem chance.
Mas me diga…
isso é ajuda ao povo…
ou investimento político?
Talvez a próxima mudança precise ser ainda mais dura.
Talvez o nome de quem manda a emenda nem devesse aparecer.
Talvez isso tivesse que ser silencioso.
Limpo.
Justo.
Sem marketing.
Sem troca.
Sem dependência.
Porque político não é dono de dinheiro público.
Político é funcionário.
E funcionário provisório.
Então por que esse poder todo?
Por que essa concentração?
Por que esse controle?
Se o dinheiro é do povo…
não deveria existir outra forma de dividir?
Mais justa.
Mais direta.
Sem amarras.
Porque enquanto isso não muda…
eu continuo nascendo todo ano.
Bilhões.
E lá fora…
a fome continua.
A casa de taipa continua.
A criança sem merenda continua.
O trabalhador indo embora continua.
A diferença agora é uma só:
quem desviar… vai cair junto comigo.
Eu não existia assim, com esse poder todo. Antes, eu era tímida, discreta, quase simbólica. Mas cresci. E cresci muito dentro de Congresso Nacional.
Hoje eu sou disputada. Sou cortejada. Sou prometida em campanha.
Cada ano eu me multiplico — bilhões. E eu me espalho pelas mãos de quem decide o meu destino:
Um deputado federal pode direcionar cerca de R$ 30 a R$ 40 milhões em emendas individuais.
Um senador pode chegar a algo próximo de R$ 60 milhões.
Eu sou a Emenda.
Eu nasci pra servir ao povo.
Mas, dependendo de quem me segura…
Eu posso virar escola…
Ou posso virar escândalo.





