Geral

Pastores em política, política de pastores

Por que homens profetas de Deus trocam a ética do púlpito por tribuna de falácias e o poder do Espírito por façanhas de corrupção?

HÁ ALGUM TEMPO, a igreja brasileira discutia a participação de pastores em política partidária e a política feita pela igreja como grupo social participativo. Política partidária e a política social, comunitária e participativa praticada pela igreja — como corpo de Cristo e grupo social — é outra coisa. São coisas diferentes. Desde a minha juventude, tenho acompanhado os movimentos sociais das relações entre a igreja evangélica e a política feita pelos políticos e cheguei a uma conclusão: pastores envolvidos em política, o resultado é uma multidão de ovelhas perdidas e currais eleitorais, onde se observam fortes ganâncias por dinheiro e poder. Tenho conversado com muitos pastores e percebo que a grande maioria deles vê a barganha por cargos, dinheiro e poder como vantagens e não como pecado.

Quero deixar claro que não tenho nada contra o pastor trabalhar na vida pública, ser participativo e ganhar seu dinheiro. Desde que seja dignamente. Eu, por exemplo, sou jornalista, assistente social, pedagogo e tenho outras formações. Portanto, sou habilitado para trabalhar nas áreas nas quais me formei, posso ganhar meu dinheiro e sobreviver como qualquer cidadão de bem. Estudei para isto, afinal. Mas usar a prerrogativa e o título de pastor ou usar os votos da igreja como moeda de troca para obter cargos, dinheiro e outras vantagens ilícitas, além de ser crime é pecado. Por outro lado, o pastor é um homem público e deve, sim, participar da vida pública, política e social, não para se autobeneficiar (com o voto da igreja de Jesus), mas para contribuir para o bem da coletividade, defendendo a justiça social e anunciando o reino de Deus na terra entre os homens de boa vontade. Portanto, de maneira alguma o pastor deve ser alienado.

Lembro que, há algumas décadas, no Brasil, a política era demonizada por muitos evangélicos. Hoje, para a maioria deles, a participação política da igreja é o caminho para implantação do Reino de Deus, do qual os pastores são os maiores representantes. Por conseguinte, não é pouco o número de pastores que ultimamente têm ingressado na carreira política em “nome de Deus” e da fé evangélica, se candidatando a cargos públicos. A mudança de mentalidade, ainda em andamento no Brasil, no meio evangélico, concernente ao cristão e à vida política, não é pecado. Aliás, é até benéfica. Não podemos estar alheios à política, e devemos participar da sociedade e da vida pública. Afinal de contas, somos cidadãos dos céus e cidadãos do mundo ao mesmo tempo. E a Bíblia não proíbe os homens de Deus de participarem da atividade governativa da nação. Mas o que pensar sobre pastores que estão ingressando em carreiras políticas e envolvidos até o pescoço em façanhas de corrupção? Muito triste e pecaminoso.

Muitos pastores que se candidataram nas últimas eleições afirmaram o estar fazendo devido a uma vocação divina. E essa é a justificativa utilizada por eles como trampolim para envolvimento com corrupção. O que percebemos hoje em dia é que a maior parte deles não conseguiu ser eleita. Diante desse fato, concluímos: ou Deus mentiu para eles ou eles mentiram para a igreja. Admitir que Deus os chamou para serem políticos mas não permitiu que eles fossem eleitos é extremamente contraditório e paradoxal.

Esses homens estão no ministério, segundo eles, pela vontade de Deus. No entanto, muitos têm abandonado a carreira eclesiástica para serem homens do governo. Qual a vontade de Deus para eles afinal?

Em sua mentalidade está a certeza de que podem conciliar o ofício pastoral com a vida política. Pensam que estar no ministério é pregar aos finais de semana e administrar a igreja à distância. Ao contrário, o ministério exige disponibilidade de tempo e entrega de vida. Um sermão não é uma palavra “inspirada” na hora, nem fruto apenas de uma boa ideia, é resultado de um estudo sério das Escrituras e de um caráter forjado por Deus. E isto demanda tempo para estudar, elaborar e orar. Pastorear é estar com as ovelhas e para isso é necessário tempo. Ter uma função parlamentar não é apenas cumprir os horários e participar das votações e reuniões, mas viver uma vida árdua e com uma agenda extensa. Logo, a concomitância nas duas carreiras levará à mediocridade em ambas.

Tais indivíduos profanam o serviço pastoral por duas razões. Primeiro por abandonarem a graça sublime do ministério pastoral, pois abdicam da vontade original de Deus por interesses pessoais. Segundo, por fazerem da igreja, direta ou indiretamente, um curral eleitoral.

Em princípio, estamos falando, nesse contexto, sobre pastores, mas não é pequeno o número de lobos e falsos profetas infiltrados no rebanho. Assim que as eleições chegam, eles retiram suas vestes de pastores e revelam seus reais interesses: angariar os votos dos fiéis e usá-los como difusores de sua campanha eleitoral em nome da fé e em troca de interesses pessoais.

Seria bom ver, nas próximas eleições, cristãos capacitados concorrendo a cargos públicos. Seria bom vê-los ganhar com a graça de Deus. Pastor jamais deve deixar de ouvir a voz Deus e só deve entrar na vida pública como candidato se Deus o chamar para isso. Do contrário, o melhor favor que o crente faz ao seu pastor que se iludiu com os poderes desse mundo tenebroso é não votar nele. A igreja deve ajudá-lo a lembrar do propósito para o qual Deus o escolheu.

Mostrar mais

Deixe um comentário

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo