Falam por aí que golpe é tipo fake news: sempre existiu. Movidos por ganância, o homem sempre encontrou formas de elaborar uma artimanha aqui, falas não cumpridas acolá, traições e a tal “esperteza” de quem acha que tudo pode.
Quem nunca ouviu falar em golpes com falsos vendedores de porta em porta, ou daquele velho bilhete da loteria premiado, vendido por uma balela a algum desavisado na esquina.
Bom, as formas de golpe são as mais diversas e cada vez mais vem se modernizando e se atualizando às novas tendências. Até aprendeu a usar celular, aplicativos de mensagens, inteligência artificial, boletos digitais.
O que era um golpe aqui, uma fraude ali, agora virou tendência e está presente com mais intensidade com a chegada na era digital. A pressa da vida moderna e as facilidades ao alcance de um clique servem como distração e formam um campo fértil para os vigaristas de plantão.
As possibilidades são as mais diversas e o cardápio é vasto, daqueles de encher os olhos. Eles vêm com telefonemas, abordagens pessoais, mensagem por aplicativo, mensagem de texto, e-mail, redes sociais. Tudo que serve para nos comunicarmos, pode servir para nos trumbicarmos, parafraseando inversamente o grande Chacrinha.
Nenhum golpe se justifica, óbvio. Mas eles são ainda mais dolorosos quando praticados contra gente simples, trabalhadora, acostumada a confiar na palavra. Dentre elas, pessoas viveram longe da vida digital, mas que, de repente, precisam lidar com telas, senhas, códigos, QR Codes, chaves de acesso.
Pessoas que trabalharam a vida inteira para construir algum patrimônio ou simplesmente terem o direito de se aposentar. Nem mesmo o soldo do aposento está livre das tramas maléficas, presas fáceis para quem não tem escrúpulos.
Em meio a tanta trama golpista, surgem aquelas de “arrepiar”, inclusive com caráter institucional, como foi o caso dos descontos do INSS nas aposentadorias e pensões, descontados na fonte. A esta fraude, pelo menos, já estamos carecas de saber, de tanto que foi e ainda é noticiada.
Mas tem o golpe da aposentadoria também, aquela prometida por um intermediador, que leva documentos, faz a pessoa assinar vários papéis, mas que o dinheiro não chega na conta.
O clone do WhatsApp está na moda, com captura de informações e pedido de dinheiro sob a falácia de que “minha conta está bloqueada e preciso quitar uma dívida/boleto com urgência”. Mesma tendência dos falsos boletos, que chegam por e-mail ou pelo sistema bancário, quando autorizado, que capta todos os boletos emitidos em um CPF ou CNPJ.
Golpes são construídos com precisão quase científica de uma engenharia social, com roubo de dados e emprego de inteligência artificial.
Valem-se da boa fé do outro lado da linha ou da tela, de uma pessoa com pouca instrução ou que fica desesperada com a situação, a quem não é dado tempo a pensar ou que não distingue um site ou aplicativo falso.
Mas é preciso enfrentar esses problemas. Não se pode esconder sob o pano da vergonha, de uma culpa que não deve ser da vítima de boa-fé. Acionar a instituição financeira e denunciar o caso junto a autoridades policiais são medidas importantes após o golpe ou fraude ocorrer.
Ainda assim, é preciso adotar medidas de prevenção. Infelizmente, nesse quadro de insegurança total, em que tudo pode ser uma ilusão, a regra é desconfiar de tudo e de quase todos. Informação é a base para combater falsários e golpistas.
Aquelas pessoas da família com mais instrução podem orientar quem tem menos habilidade com a tecnologia, por exemplo. Ensinar a checar, tirar prova, fazer contato diretamente com a pessoa em caso de pedidos de dinheiro, principalmente por um número de telefone ou canal de comunicação diferente do que a pessoa utiliza oficialmente.
O Estado também precisa fazer sua parte, especialmente com mecanismos que visem coibir golpes que utilizam o pano de fundo institucional, assim como ações educativas que orientem a população.
Este texto não é apenas um alerta, mas um convite. Um convite para que cuidemos uns dos outros, para que não deixemos aquelas pessoas com menos instrução jogadas à própria sorte em um cenário que esconde armadilhas. Se os golpes estão modernos, modernizemos também a solidariedade.
Sejamos mais pacientes, sejamos mais participativos e pacientes antes de julgar a vítima. Façamos isso para que o “conto do vigário” deixe de ser uma história real do cotidiano e volte a ser apenas uma lenda distante.
Osmar Gomes dos Santos é Juiz de Direito na Comarca da Ilha de São Luís (MA).
Membro das Academias Ludovicense de Letras, Maranhense de Letras Jurídicas, da ALMA – Academia Literária do Maranhão e da AMCAL – Academia Matinhense de Ciências, Artes e Letras.





