DAVI FOI UM HOMEM EXTREMAMENTE PEDAGÓGICO em matéria de espiritualidade e, portanto, de relacionamento com Deus. Ele sabia ser ser humano quando errava e sabia se redimir com Deus. A lição que aprendemos com Davi é de que coração compungido e alma arrependida não tem pecado e, então, não tem rejeição divina.

Sem dúvida, como nos dias de Davi, estamos vivendo tempos difíceis. O pânico põe em risco o autocontrole das emoções. Aos poucos renasce, com novas interfaces, o instinto de sobrevivência darwiniano no qual o mais forte e com capacidade de adaptação toma o primeiro lugar. Consequentemente, os idosos e os pobres correm o risco de serem descartados. Vivemos, enfim, uma espiritualidade seletiva. E o que é pior, sem sintonia com o céu.
Por outro lado, antigas imagens de Deus renascem ao interno da comunidade cristã. Para entendê-las temos que recordar os momentos tristes da história.
Na segunda metade do século XIV, explodiu a Peste Negra (peste bubônica), dizimando um terço da população europeia. Como toda sociedade teocêntrica, acreditava-se que Deus estava revoltado, pregou-se demasiado a ira divina. Para aplacar tal fúria buscaram-se os bodes expiatórios: judeus foram perseguidos e bruxas queimadas em fogueiras. Dizia-se que tudo estava acontecendo porque a gravidade de nossos pecados desagradava a Deus. Em nome de Deus, a igreja assassinou muita gente. Era uma espiritualidade violenta e distorcida daquilo que entendemos ser o amor de Deus. Diferente daquilo que Davi nos ensinou ser relacionamento com o sagrado e busca da espiritualidade.
No plano humano, temos na história da literatura uma referência clássica ao Soneto XIII (também conhecido como “Ouvir Estrelas”) da obra Via Láctea, de Olavo Bilac.
O poema é um dos marcos do Parnasianismo brasileiro e aborda a sensibilidade necessária para “ouvir” e entender o universo através do amor. O amor é o mais significativo pilar da busca pela espiritualidade. O poema de Bilac diz:
“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo / Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto, / Que, para ouvi-las, muita vez desperto / E abro as janelas, pálido de espanto…
O significado disto passa pelo “eu lírico” defendendo que a capacidade de “ouvir estrelas” — ou seja, compreender a beleza e os mistérios do mundo, inclusive do mundo sensível à espiritualidade — não é loucura, mas um privilégio de quem ama. Davi sabia amar a Deus e tinha os ouvidos abertos para o Senhor. Ele vivia o tempo todo sob proteção divina.
Voltando ao exemplo da sensibilidade da espiritualidade humana, o soneto de Bilac termina com a célebre afirmação: “Direis agora: ‘Tresloucado amigo! / Que conversas com elas? Que sentido / Tem o que dizem, quando estão contigo?’ / E eu vos direi: ‘Amai para entendê-las! / Pois só quem ama tem ouvido capaz / De ouvir e de entender estrelas'”.
Dizem que a arte, inclusive a arte poética, é pura espiritualidade. No contexto cultural, é comum encontrar esse poema de Bilac associado a músicas e interpretações de artistas como Belchior e em homenagens à poesia brasileira.
O que aprendemos com isso no contexto da literura bíblica? Davi nos ensina que relacionamento com Deus passa pela sensibilidade espiritual que pode vir em forma de poesia e que o coração humano é o laboratório onde o Senhor trabalha a construção ou a reconstrução do homem enquanto ser espiritual, social e relacional. Isso pode acontecer em forma de arte. Cantada ou escrita. Música, poesia, pinura ou romance. Cada dom tem a sua expressividade propriamente dita.
Davi nos ensina, então, que a sensibilidade espiritual é a capacidade de perceber, discernir e responder às realidades espirituais e à direção divina. Isto nós aprendemos nos salmos construídos por ele. Envolve discernimento aguçado sobre ambientes e pessoas, sendo considerada um dom para compreender o mundo invisível. Logo, a sensibilidade espiritual pode ser cultivada através de oração, meditação e piedade, exigindo equilíbrio para não gerar confusão.
Assim, como vemos, os principais aspectos da sensibilidade espiritual são pontuáveis.
Primeiramente, temos o discernimento. Alta capacidade de perceber o ambiente, sentindo o “peso espiritual” de lugares ou pessoas. Depois, temos conexão divina. Entendida como uma ferramenta divina, permitindo ouvir a voz do Espírito e agir conforme Seus propósitos. Então vivenciamos sinais e sintomas. E aí pode incluir intuição aguçada, sonhos vívidos ou percepção de odores, muitas vezes acompanhando o que é descrito como dons.
Mas há riscos de sobrecarga. Indivíduos com alta sensibilidade espiritual podem sofrer de exaustão, estresse ou angústia ao absorver energias cósmicas negativas, exigindo práticas de proteção e autoconhecimento. Veja que há dois mundos: o mundo de energias cósmicas negativas, e o mundo de energias cosmicas positivas. O bem e o mal.
Como desenvolver e preservar (dicas práticas). Pausas e relaxamento. Reservar momentos para oração, meditação ou silêncio para acalmar a mente e o corpo é necessário. Filtro de conteúdo. Reduzir o consumo de notícias e informações que geram ansiedade e sobrecarga energética.
É preciso registrar sonhos e intuições para identificar padrões de comportamentos espirituais. Definição de limites. Aprender a dizer “não” para proteger sua energia. Estudo e piedade. Ler textos sagrados, frequentar locais de adoração e manter práticas de fé como orações diárias. A falta de compreensão sobre esse dom pode torná-lo um fardo, mas, quando bem guiada, a sensibilidade espiritual proporciona crescimento, paz e maior conexão com o sagrado.
A poesia de Davi, majoritariamente encontrada nos Salmos bíblicos, é marcada por intensa expressão emocional, confiança em Deus, confissão de pecados e louvor. Suas composições refletem sua vida como pastor e rei, abordando temas como refúgio no perigo, gratidão e a beleza da criação.
Podemos mencionar, aqui, alguns exemplos notáveis da poesia de Davi nos Salmos por ele escritos. Refúgio e oração (Salmo 142). “Clamo a ti, Senhor, e digo: Tu és o meu refúgio; pois estou muito abatido; pois são mais fortes do que eu.”
Confiança e guia (Salmo 32.8). “O Senhor Deus me disse: ‘Eu lhe ensinarei o caminho por onde você deve ir; eu vou guiá-lo e orientá-lo.'”. Sobre a criação (Salmo 8), Davi contrasta a pequenez humana com a grandeza da criação de Deus. E move o coração de Deus para si.
Davi tinha muita gratidão pelo seu Senhor (Salmo 145.1). “Eu te exaltarei, ó Deus, rei meu, e bendirei o teu nome pelos séculos dos séculos e para sempre.”
Em relação às características da poesia de Davi, podemos apontar a linguagem de deserto. Ele utiliza metáforas do ambiente árido e pastoril. Usa também acrósticos, em que alguns salmos, como o 34, utilizam letras sucessivas do alfabeto hebraico para cada versículo. A intimidade expressa uma relação pessoal e direta com Deus, alternando entre sofrimento e exaltação. Davi, finalmente, tinha uma sensibilidade espiritual definitivamente afinada com Deus. Ele estava o tempo todo com seus ouvidos ligados ao céu, ouvindo e escrevendo as poéticas sopradas pelo seu Espírito. Deus, finalmente, fala com o homem da forma que Ele quer.

