O seguro-defeso está sob investigação da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da União após o crescimento acelerado no número de beneficiários nos últimos anos.
A estrutura sindical da pesca é composta por colônias municipais, federações estaduais e confederações nacionais. A maior delas é a Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e Aquicultura (CBPA), fundada em 2020 pelo sindicalista Abraão Lincoln Ferreira, após decisão judicial impedir que ele assumisse cargo no Piauí enquanto respondia a processos criminais.
A partir da criação da entidade, os acordos entre órgãos da pesca e o INSS aumentaram significativamente, acompanhados de um volume elevado de novas inscrições de supostos pescadores.
Nesta semana, Lincoln — que já havia sido ouvido pela CPMI do INSS — foi alvo de busca e apreensão da Polícia Federal em inquérito sobre possíveis irregularidades em descontos aplicados a aposentados.
Movimentações milionárias e suspeita de lavagem de dinheiro
Segundo documentos analisados pela CPMI, a CBPA recebeu R$ 99 milhões em descontos nas contas de aposentados entre 2023 e 2025. O volume total de receitas, porém, é ainda maior: uma única conta da confederação movimentou R$ 410 milhões entre maio de 2024 e maio de 2025.
Em comunicação enviada ao Coaf, a instituição financeira responsável classificou o volume como “muito acima do declarado”, apontando indícios de lavagem de dinheiro, desvio de recursos públicos e possível favorecimento de crimes ambientais.
Parte do dinheiro foi destinada a empresas que, segundo os bancos, funcionariam como contas de passagem para ocultar o destino final dos recursos. Entre elas:
Home Staff (SP): recebeu R$ 6,4 milhões, sendo que R$ 4,7 milhões foram repassados à Arpar Administração e Participação. Considerando 2024 e 2025, a empresa recebeu R$ 20,4 milhões da CBPA.
Titanium Pay: recebeu R$ 2 milhões em 2024 e repassou R$ 1,3 milhão à Arpar. No período completo, recebeu R$ 15,9 milhões.
Em um dos relatórios, o banco afirma que as operações são “atípicas e incompatíveis” com o perfil das empresas, sugerindo que as transações podem ter sido estruturadas para dissimular o verdadeiro beneficiário dos recursos.
A Arpar — destino recorrente dos repasses — já é citada em investigações sobre descontos indevidos de aposentados e apareceu em denúncias envolvendo o contrato entre a casa de apostas Vai de Bet e o Corinthians.
Gastos internos também levantam suspeitas
Os relatórios apontam que a CBPA registrou R$ 14 milhões em despesas identificadas por notas fiscais. O maior valor, R$ 4,6 milhões, foi pago à empresa Pagglo Serviços Financeiros Digitais, sob a justificativa de “fornecimento de e-book”.
Outro gasto que chamou atenção foi o pagamento de R$ 3,3 milhões a uma gráfica.
Segundo a Receita Federal, o próprio Abraão Lincoln teve despesas pessoais muito baixas em seu nome: R$ 1,6 mil em 2024 e R$ 96,3 mil em 2025, o que reforça a suspeita de que valores relevantes possam ter sido movimentados por terceiros.
Federações e colônias também são alvo de investigação
As irregularidades não se restringem à confederação nacional. Colônias e federações estaduais também registraram movimentações classificadas como suspeitas.
Fecopema (MA): o deputado estadual Edson Cunha de Araújo (PSB), presidente licenciado da federação, recebeu R$ 5,4 milhões entre maio de 2023 e maio de 2024, montante considerado atípico pelos bancos.
Pau dos Ferros (RN): o dirigente Rodrigo Araújo Andrade recebeu R$ 200 mil da CBPA no segundo semestre de 2023; R$ 75 mil foram sacados em cheques supostamente para um evento sobre pesca. A colônia havia inscrito apenas 107 pescadores no seguro-defeso naquele ano.
Amapá (AP): a conta bancária da irmã da dirigente local, Izabela dos Santos, movimentou R$ 178 mil entre 2023 e 2024, usados para despesas da colônia e transferências à própria Izabela. O município tem 8 mil habitantes e registrou 880 segurados no seguro-defeso em 2024.
Igarapé-Miri (PA): administrada por Ana Cristina Fernandes, a colônia recebeu R$ 858,2 mil em um ano, metade em depósitos em espécie. A entidade alegou tratar-se de contribuições de associados, mas o banco identificou indícios de fracionamento para dificultar a rastreabilidade.

